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A perda do humanista GERALDO PEREIRA Escrevo ainda sob o calor dos acontecimentos ou escrevo sob a perplexidade de que fui tomado com a notícia. Ninguém contava com isso, ninguém esperava tamanha reviravolta em sua vida e na cena científica e cultural do Recife. Como ficarão a Fundação Gilberto Freyre, o Seminário de Tropicologia e outras atividades assemelhadas? Com toda certeza um dos herdeiros de seu saber humanístico assumirá a condução de tudo isso e fará jus ao sobrenome que carrega como legado gilbertiano. Infelizmente, sequer pude comparecer às exéquias, como gostaria, sequer pude abraçar os seus, invadidos como foram pelo sentimento da irreparável perda. Doente, aguardando uma cirurgia que há de me reabilitar a coluna vertebral, exponho do meu canto o sentimento maior, o do vazio que sentem a cidade e os seus atores culturais. Lamentável a surpresa, a da doença e a da morte! Você conseguiu manter o astral em alta sempre, sustentando a seriedade nos momentos exigentes, uma graça aqui e outra acolá, uma piada e uma anedota. Nem isso serviu para aquietar o espírito do fogo das ardências que traz o estresse. Não há como somar as realizações, tantas foram neste mundo da falta de reconhecimento e da ingratidão. Basta olhar a Fundação Joaquim Nabuco para compreender a expansão física e funcional daquele complexo, um campus verdadeiramente da pesquisa e até do ensino de pós-graduação. Celeiro maior da cultura pernambucana. E a periodicidade das publicações, a custo mantida, sem verbas e sem estímulos. Várias revistas que saiam do Brasil para as terras de além-mar, fazendo o sucesso merecido e esperado. Idéias e investigações de caráter científico e cultural mostraram ao mundo a grandeza do Brasil e de sua gente. Tudo era você! Sua persistência e seu empreendedorismo! A nossa amizade vinha dos vínculos familiares, o meu pai (Nilo Pereira) e o seu pai (Gilberto Freyre) e se não convivemos mais, guardamos essa aproximação, a qual nunca nos faltou nos contatos e nos encontros mesmo que fortuitos. Uma vez, brincando comigo e alegando que não tinha direito ao trato acadêmico maior - o de Magnífico - chamou-me de Esplêndido e por Esplêndido ficou. Ocupava lugar à mesa nas solenidades assim, tratado pelo honorífico e peculiar título, como se fosse in pectoris. O seu esforço nos últimos dias de Nilo comoveu todos, um pai que você também adotara e era preciso encontrar como distrair-se na finitude das horas, evitando os pensamentos de quem se apercebe de que a vida está por um fio. Nisso estava o seu espírito humano, ao contrário de gente que deixa de ouvir o grito da dor alheia e nega o socorro, mesmo quando o compromisso ético exige. Ultimamente, envolvido como estava com a Fundação Gilberto Freyre, concentrou forças na instituição, promovendo encontros e ampliando a capacidade física, através de um auditório cujo empreendedorismo que lhe caracterizava fez levantar. E ali ouvimos sábios falarem e escutamos outros de menor cabedal cultural, cada qual com suas idéias e seus ideais. Agora, empenhava-se em ver o livro maior de Gilberto traduzido para o japonês, sendo como era grande amigo da Terra do Sol Nascente e por isso, por essa ligação, a notícia tanto comoveu Harumi Royama, uma quase brasileira, que vez ou outra comparece à Fundação para sorver um pouco mais de Brasil. Realmente, não deixava de ir às solenidades e às recepções oferecidas pelos vários cônsules com os quais conviveu. Era uma presença constante, animada e alegre! Fico com a imagem do ser vivo, dinâmico e produtivo, mesmo que seja uma fantasia pensar assim. Fico com a visão do casal nos carnavais do Clube Português, nos anos sessenta, rodopiando no salão e aproveitando de Nelson o frevo bem escrito, as evocações todas, sem esquecer Capiba. Há de encontrar todos no infinito dos céus e novamente evocar aquelas lembranças. Fique em paz, companheiro! Geraldo Pereira é professor da UFPE. pereira@elogica.com.br FONTE: Jornal do Commercio, 19/Maio/2005. |
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