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Pernambuco de luto com a morte de Fernando Freyre

Ex-presidente da Fundação Joaquim Nabuco foi internado com problemas na artéria aorta

Fernando de Mello Freyre, 61 anos, ex-presidente da Fundação Joaquim da Nabuco (Fundaj) e filho do sociólogo e escritor Gilberto Freyre, faleceu ontem à tarde. Freyre sofreu um aneurisma na artéria aorta na madrugada de ontem em sua casa, no bairro de Casa Forte, sendo encaminhado à emergência do Hospital Santa Joana, onde foi submetido a uma cirurgia. Pouco depois do meio-dia, ele sofreu outro aneurisma e os médicos tentaram, sem sucesso, uma nova intervenção.

Bacharel em Direito e em Administração, Fernando presidiu a Fundaj por mais de três décadas e ultimamente estava à frente da Fundação Gilberto Freyre, localizada no casarão em Apipucos onde morou com o pai. Com profunda formação cultural e aptidão no setor administrativo, ele foi responsável pela implementação de diversos projetos durante sua gestão na entidade.

Amiga de Freyre há várias décadas, a jornalista e professora Lêda Rivas lembra que chegou a pedir o currículo de Fernando um dia antes de sua morte, tamanha era a descrença de que ele teria algum problema de saúde. "Liguei para ele pedindo o currículo. Infelizmente ocorreu o que ninguém esperava", lamentou Rivas. Familiares de Fernando Freyre informaram a amigos que antes da quinta-feira ele não tinha manifestado qualquer incômodo com a saúde.

Bastante abalado com a notícia, o senador pernambucano e ex-ministro da Educação, Cristovam Buarque, informou que soube do falecimento através do sucessor de Freyre na Fundaj, Fernando Lyra. "Trata-se de um amigo de infância e de uma pessoa muito nova para morrer assim", disse o senador, de Brasília.

Em nota divulgada à Imprensa, a direção da Fundaj endossou o pesar pelo falecimento de Fernando Freyre e anunciou o cancelamento da entrega do II Troféu Amigo do Trabalhador 2005, que aconteceria às 19h de hoje, no auditório da Fundação. O lançamento do livro do professor e escritor Jacques Ribeboim, marcado para hoje, também foi adiado a pedido da Academia Pernambucana de Letras, da qual Fernando era membro.

Fernando era casado com Maria Cristina Suassuna Freyre e tinha três filhos: Gilberto Freyre Neto, que o assessorava o pai na fundação; Fernando Freyre Filho e Francisca Freyre, que está em Portugal. O sepultamento de seu corpo foi marcado para 10h de hoje, no Cemitério Parque das Flores.

Fundaj carrega a marca de Freyre

Fernando Freyre presidiu a Fundação Joaquim Nabuco, criada por seu pai Gilberto Freyre, durante 31 anos. Apesar de não ser fundador da instituição, ele já estava na presidência quando ela ainda era um instituto de pesquisa e foi transformada em fundação, em 1980, ao mesmo tempo em que o Ministério da Educação assumiu seu controle. Fernando foi o grande responsável por essa mudança, sua principal meta quando assumiu, essencial para que a entidade alcançasse importância nacional e internacional. Durante três décadas, ele coordenou, fiscalizou e supervisionou todas as atividades da Fundaj. O desenvolvimento da pesquisa social no Norte e Nordeste foi sua prioridade.

Como Fundação, a instituição pode viabilizar convênios e dinamizar sua contribuição política, social, científica e cultural. A instituição só não esteve ligada ao Ministério da Educação no período entre 1985 e 1990, quando foi vinculada ao Ministério da Cultura. Em sua presidência, a Fundaj atingiu o porte em que se encontra hoje, com uma estrutura funcionando em quatro prédios, um em Casa Forte, um no Derby e dois em Apipucos.

Fernando Freyre ampliou o leque de atuação da Fundaj, criando a Editora Massangana e institutos de pesquisa especializados em cultura, tropicologia, história, estudos sociais, documentação, políticas públicas e estudos sobre a Amazônia. Ele também fundou espaços culturais importantes para o Recife, como o Museu do Homem do Nordeste, galerias de arte contemporânea e o Cinema da Fundação, proporcionando também a construção e manutenção de um dos maiores acervos de documentos, peças de artesanato, filmes, antigüidades e fotografias do Brasil. Também transformou o Engenho Massangana, no Cabo de Santo Agostinho, em Centro Cultural.

Sua gestão, entretanto, chegou a ser criticada por causa da contratação de parentes e, principalmente, pela longa duração de três décadas. As críticas consideravam antidemocrática sua permanência no cargo, mas ele era defendido pela seriedade do trabalho da Fundação, que nunca teve o nome envolvido emescândalos e sempre teve um prestígio ascendente. Quem o defendia o comparava com gestores de grandes universidades internacionais que não trocam de gestor.

Repercussão

"O desaparecimento de Fernando é uma perda grande para a Cultura de Pernambuco. Seu trabalho à frente da Fundação Joaquim Nabuco, durante 32 anos, e mais recentemente à frente da Fundação Gilberto Freyre, deu seqüência ao legado deixado por seu pai. Fernando sempre foi o que poderíamos chamar de empreendedor da pesquisa e da cultura pernambucanas". (Jarbas Vasconcelos, governador de Pernambuco)

"É lamentável, uma perda muito grande para o Recife, Pernambuco e para o Brasil. Fernando Freyre teve um papel muito importante à frente da Fundação Joaquim Nabuco e à frente da Fundação Gilberto Freyre, onde desempenhou um grande trabalho na área de pesquisa e de investigação, seguindo os passos de seu pai, personalidade que sempre se mantinha presente. Então o povo recifense, o povo pernambucano e brasileiro lamentam esta grande perda". (João Paulo, prefeito do Recife)

" Pernambuco perde precocemente um de seus mais talentosos e melhores quadros. Desejo destacar sua atuação à frente da Fundação Joaquim Nabuco, iniciativa pioneira de seu pai, o mestre Gilberto Freyre, cuja criação tanto contribuiu para o desenvolvimento das Ciências Sociais e muito projetou Pernambuco no país e no exterior. Como amigo sofro com o seu desaparecimento, mas sei que o Criador o acolherá em seus braços. Ele permanece presente na saudade, pois, como disse Rui Barbosa, a morte não afasta, aproxima". (Marco Maciel, senador de Pernambuco)

" Era um amigo de infância e um homem novo para morrer. Estudei com ele no antigo Ginásio São Luiz e freqüentava sua casa ainda na época que seus pais eram vivos. Com mais de trinta anos no comando da Fundaj, foi o próprio Fernando que fez a fundação. Essa é que é grande verdade. Foi isso que eu disse quando era ministro da Educação num encontro com ele antes daquela troca de gestão na Fundaj". (Cristovam Buarque, senador)

" A morte de Fernando para mim foi uma tragédia. Trabalhei com ele na Fundaj durante 18 anos. Apesar das divergências ideológicas que nós tínhamos, ele sempre respeitou minhas posições pessoais e profissionais. Entrei na Fundação Nabuco a convite dele e com a chancela do pai. Mesmo sendo um homem culto, ele era, sobretudo, um exímio administrador". (Manuel Correia de Andrade, pesquisador escritor e geógrafo)

" Tive a sensação que nos últimos dias ele tinha ficado mais solto, mais leve. Cheguei a enviar uma carta para ele ontem (quarta-feira) sem saber que estava doente. Sua dedicação à Fundação Gilberto Freyre era impressionante e fica agora uma grande responsabilidade para quem assumir seu posto". (Luzilá Gonçalves, escritora)

" Conheci Fernando desde os tempos em que era amigo dos seus pais e o considero um dos grandes responsáveis pela guinada da Fundação Joaquim Nabuco na cultura, pesquisa e estudos sociais. Trata-se de uma perda irreparável não só para a cultura local, mas para Pernambuco como um todo. Além de administrador comprovadamente competente, Fernando também promoveu a difusão da cultura em todo o Estado, com destaque para as publicações que referendou através da Editora Massangana". (Waldênio Porto, presidente da Academia Pernambucana de Letras)

Por André Duarte e Júlio Cavani

FONTE: Diario de Pernambuco, 29/Abr./2005.



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