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FERNANDO FREYRE E O QUIXOTE Paulo Gustavo "Hoje somos, amanhã fomos" - tal é a frase do 'Quixote' que me veio de imediato ao saber da súbita morte do amigo de tantos anos. Na verdade, aos poucos, ao reviver, em turbilhão, duas décadas de convivência, muitas outras passagens do imenso livro de Cervantes me vieram à memória. Como se sabe, é de sonho, de afeto e de austera gravidade que se faz a tessitura do Quixote, o personagem. Ao contrário do que muita gente imagina, Dom Quixote não é cômico ou melancólico em si mesmo. De resto, seriedade não é melancolia. Melancolia, sim, é muitas vezes o embate com a realidade e, pior, com realidades desfiguradas e mesquinhas. Fernando Freyre não chegava a ser um Dom Quixote Gordo - como a Oliveira Lima se referiu Gilberto Freyre -, mas era - só agora o vejo - um Dom Quixote a seu modo. Não tinha uma lança apolínea e refulgente de tranqüilidade, tinha, ao contrário, armas dionisíacas e por vezes impetuosas para enfrentar "gigantes" não exatamente improváveis mas certamente freqüentes na paisagem cultural brasileira e, em particular, na nordestina. Como o Quixote, tinha a autonomia, a coragem e a vontade que não temem a altura dos adversários. Como escudo, empunhava a obra paterna e assim se sentia bem e ainda mais pronto para as lutas e os adversários, os visíveis e os invisíveis. Quis o destino ou a Providência que partisse no limiar da velhice, como se fosse um amado pelos deuses. Foi-se no esplendor da maturidade. Não esperou o vôo do pássaro de Minerva, não teve mais tempo para tantos que o queriam bem. Não chegaria à idade da longa paciência, à qual geneticamente parecia predestinado. Seu crepúsculo foi instantâneo, como se tivesse sido talhado para uma única e poderosa missão, como se o dia seguinte não mais interessasse e não houvesse dentro dele aquela "ardente paciência" de que falava Rimbaud. "Cavaleiro da cultura pernambucana" foi como o chamei no nosso último encontro, na Fundação Gilberto Freyre, irmanados que estávamos pelas celebrações dos quatrocentos anos de Dom Quixote, sem suspeitar que ele, como a personagem cervantina, não conheceria a senilidade nem a "desfiguração". E aqui toco num ponto em que outros amigos já tocaram: a firmeza de seu caráter. Um caráter sem adjetivos desfigurantes em sua volta, caráter simplesmente caráter, algo, como se sabe, cada vez mais escasso e mais raro em nossos tempos... Vi-o morto, mas não posso acreditá-lo morto. Imagino que não se acostumará à morte, a essa morte que não olhou frente a frente em seus olhos, que foi dura para os que ficaram e, de certa forma, até suave para ele próprio. Com seu desaparecimento, dispersa-se em fragmentos um tempo humano que ele soubera chamar a si e reunir ao seu redor. Um tempo de Pernambuco - como me lembrou o antropólogo Roberto Motta -, uma história de aventuras e rotinas, sonhos realizados e sonhos por fazer. Quanto a mim, perdi um amigo e, como um novo Sancho Pança, poderia ter exclamado à cabeceira do seu leito: "Dr. Fernando, tome meu conselho e viva muitos anos, porque a maior loucura que um homem pode fazer nesta vida é deixar-se morrer sem mais nem menos!" Paulo Gustavo é escritor, membro da União Brasileira de Escritores - UBE - PE FONTE: Jornal do Commercio, 12/Maio/2005. |
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