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Meu caro Fernando Freyre FÁTIMA QUINTAS Quem morre não morreu, partiu primeiro. Lamento não te ter escrito antes, em voz baixa, do meu jeito - quase murmúrio. Hoje a perplexidade me assalta por completo, sinto-me incapaz de ordenar o pensamento. Susto. Espanto. Desolação. Recorro ao Eclesiastes: "Tempo de chorar e tempo de rir". Estou confusa, o chão me foge dos pés e nem sei ao certo o teu novo endereço para remeter a carta que ora inicio. Não faz mal, conheço o Caminho dos Fortes, para tal morada te enviarei o jorro que de mim transborda. Começarei por onde? Não escolherei palavras, tampouco recorrerei à crua racionalidade. Tenho à minha frente papel, lápis e um coração sangrando. Tudo é tão efêmero! Cedo fenecem as açucenas do canteiro. De novo, debruço-me sobre o Eclesiastes: "Tempo de plantar e tempo de arrancar a planta". Eis-me defronte de um vácuo, o sentimento explodindo de dor, as mãos trêmulas, apenas a valentia de repetir palavras tuas, meu amigo Fernando, quase um refrão que procuraste me incutir: "A vida é um turbilhão, há que se buscar forças interiores para vencer os obstáculos da estrada. Coragem". Não, não fraquejarei, porque a imagem que de ti emana é a de um guerreiro em batalha permanente. Jamais te vi esmorecer. De escudo empunhado à Quixote, como lembra o escritor Paulo Gustavo, lutaste pelo sonho, pela justiça, pela honradez. Com lisura e absoluta integridade, dirigiste, durante 32 anos, a Fundação Joaquim Nabuco, criada em 1949 por teu pai, o mais que notável Gilberto Freyre. Instituição que, sob a tua liderança, avantajou-se no pilar do humanismo, visando a construção de um trabalho realizado com alma - a anima latina - e não à sombra da inutilidade de um funcionalismo burocrático ou da deplorável volúpia dos embates político-partidários. Reflexões se avolumaram, idéias se consolidaram, utopias afloraram numa Casa de Pesquisa e Cultura onde predominaram o vigor desmedido e a dedicação extremada pelos propósitos assumidos. Nunca discriminações. Nunca separatismos. Nunca extremismos. Todos os credos. Todas as ideologias. Todos os homens. A paixão dos iluminados e a lealdade dos bem-aventurados simbolizaram a tua profissão de fé. Caráter firme, granítico. De pedra. Creio, meu amigo Fernando, que a mais urgente necessidade do ser humano é tornar-se um ser humano. Poucos atingem essa verdadeira dimensão, afastando-se dela em nome da competitividade e do transitório poder. Poucos seguem os ensinamentos de Che Guevara: "Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás". Teu esforço, de gigante, não foi à toa, ainda que adversários tenham procurado impiedosamente macular-te. Consciências chorarão. Mas a marca da tua presença será indelével, o grito de esperança ecoará - com sonoridade retumbante - nos corações sensíveis. A morte não ceifará o enorme gesto de Amor. Recordo Thiago de Mello: "Dói não poder dar mais,/ e amor que sobra dói,/ mas é amor, nunca se estraga". Morreste por amor, querido amigo. Acredita, não duvides, o poeta nunca erra, logo não se estragará o teu excesso de doação. Quem morre não morreu, partiu primeiro. "Tão cedo passa tudo quanto passa". No redemoinho intangível que se chama vida, percebo-me náufraga. Sobrevivente de um navio à deriva. Os amigos fraternos já acenam lenços brancos, as ilhas se distanciam, o navio perde o prumo... Em que enseada aportarei? A bússola travou os ponteiros... Resta-me reinventar as sendas perdidas, pois foi contigo que aprendi a seguir adiante. Mais uma vez, o poeta me socorre: "Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive". Morto te olhei. Plácido rosto de quem não se despede. "No teu canto deserto eu te adivinho". Ali te postava, inerte, porém atento à peregrinação ao Hades. O poeta grego moderno - Constantine Cavafy - alerta: "Quando você iniciar a sua viagem em direção (AO HADES), reze para que a estrada seja longa, cheia de aventuras, cheia de conhecimentos... Tenha sempre (O HADES) em mente. Chegar é seu objetivo. Mas não tenha pressa. Não espere que a cidade ofereça grandes riquezas. A recompensa ao chegar (AO HADES) é a bela viagem por si só. Se não existisse (O HADES), você nunca teria colocado os pés na estrada". Ao ver-te morto, carrego a sensação de que Pernambuco se rompe ao meio e um abismo intransponível se avizinha. A dor não é minha, solitariamente, é coletiva. A tua representatividade como paladino da Cultura vai muito além de um nome inscrito na carne: Fernando Alfredo Guedes Pereira de Mello Freyre. O legado, o teu, se estende por entre responsabilidades que atribuíste àqueles que te seguiram até o último suspiro. De nada esqueceste. Nem mesmo da rosa vermelha que conservaste no santuário circular dos queridos ascendentes. Quem morre não morreu, partiu primeiro. A carta se alonga. Há tanto a dizer e a fazer!... Mas ainda preciso lembrar: da tarde em que conversávamos sobre a contingencialidade da existência. Com o teu insuperável otimismo arremataste: "Viver é construir a essência da individualidade num projeto que transborda de si mesmo". Nada se encerra com a viagem prematura ao Hades porque a tua visão profética transcende a ti. Escuta o meu sussurro: a família te manda um beijo em duração eterna, eu, também, os planos seguirão, a saudade, essa permanece, materializada em um espaço vazio, espaço que somente Fernando Pessoa - um outro Fernando, português, de terras também tuas - consegue metaforizar: "Abram-me todas as janelas!/ Arranquem-me todas as portas!/ Puxem a casa toda para cima de mim!/ Quero viver em liberdade no ar". Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras. FONTE: Jornal do Commercio, 11/Maio/2005. |
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