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Fernando morria de cuidados EDGAR MATTOS A expressão do título é conhecida por significar a desmedida preocupação de alguém com pessoa, coisa ou entidade. Na história de amor de Fernando Freyre pela Fundação Joaquim Nabuco, com o recente desfecho do seu prematuro falecimento, "morrer de cuidados" deixa de ser uma força de expressão para assumir os tons dramáticos de uma literalidade autêntica e tragicamente consumada. Criação do notável Gilberto Freyre, a Fundaj representava para Fernando bem mais que uma irmã, como ele, por vezes, perante os íntimos, a tratava fazendo blague com a circunstância de terem ambos, ele e a instituição, a mesma paternidade. Embalando-a nos braços desde o seu nascimento, assumiu, sob a formal designação de presidente, como que a "tutoria" da Fundação com responsabilidades e desvelos de um pai extremoso Seu afastamento daquela Casa, há pouco mais de dois anos, não o feriu apenas pela forma solerte e insidiosa com que foi conduzida sua sucessão, traindo a ingenuidade de quem, como ele, supunha ser a Fundaj, enquanto instituição científica, área de preservação cultural e, como tal, imune aos indecorosos processos de partilha política. Não o doeu, como maldosamente julgaram os que não o conheciam bem, a perda do Poder se encarado, com o pragmatismo de alguns, como um exercício de privilégios e regalias - um espaço de promoção pessoal. Fernando Freyre não precisava desse papel de presidente da Fundaj para estar no palco como um dos maiores protagonistas da cena cultural pernambucana. Presidente do Conselho Estadual de Cultura, membro da Academia Pernambucana de Letras, presidente da Fundação Gilberto Freyre, Fernando nunca experimentou o ostracismo dos ex-importantes. Amargurava-o, porém, e muito, a perda de uma forma muito particular de poder - o pátrio-poder - ou seja a perda do direito de cuidar da "tutelada", de prover suas necessidades, de assegurar a continuidade do seu processo de crescimento. Por isso, ao contrário do que soe acontecer na cena política, nunca "torceu contra" os seus sucessores. Ao contrário, sofria intensamente as notícias dos percalços fundajeanos: o lamentável fechamento da Escola de Governo, a longa inativação, por inacabáveis reformas, do Museu, da Biblioteca, e do Cinema da Fundação. Por isso, por nada poder fazer, "morria de cuidados". E assim morreu... Em sua homenagem, permito-me transcrever trechos do que, felizmente, pude lhe dizer em vida, em discurso pronunciado na Fundaj, em fevereiro de 2003, na última solenidade por ele presidida. "...Não fora esta Fundação Joaquim Nabuco, feliz idealização e criação de Gilberto Freyre, obra por ele, Fernando Freyre, consumada. Foram 31 anos de realizações que plasmaram e consolidaram, nos cenários nacional e no internacional, o conceito e a reputação desta instituição vitoriosa. Nunca é demasiado o tempo dos possuídos pelo incessante afã de construir." "...Em verdade eu lhes digo: quem tanto fez como Fernando Freyre pode até, paradoxalmente, prescindir de reconhecimentos. É que aqui é a propria obra que testemunha pelo seu autor. Aqui, cada prédio, cada instalação, cada campus desse magnífico complexo científico-cultural que é a Fundação Joaquim Nabuco traz a marca indelével do seu elevado tino administrativo, evidencia o acurado zelo e o especial carinho de quem cuidava do que ele próprio plantara." "...Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Só não muda o que já passou. O que foi feito, está definitivamente feito e, nesse sentido, é eterno e imutável. Que a missão da História é exatamente esta de resgatar a frágil memória dos homens. O passado é o nosso maior patrimônio. Ninguém será capaz de usurpá-lo. Nas alternâncias naturais do jogo democrático hoje, como amanhã, outros tantos deverão de exercer a presidência da Fundação Joaquim Nabuco. Credenciados por qualquer processo legal de escolha, esses novos dirigentes deverão ser capazes, operosos e diligentes para se fazerem dignos de sua imensa responsabilidade. Assim se deseja, assim se espera, assim se confia. Seja como for, venham os que vierem, façam o que fizerem, ninguém poderá sonegar os mais legítimos direitos do sentimento, adquiridos ao preço de tanta lida e de tanta emoção. Por tudo isso, meu caro amigo Fernando Freyre, esta instituição, comarca dos seus sonhos, usina dos seus fazeres, a Casa que você próprio edificou, esta Fundação Joaquim Nabuco haverá de ser para sempre e definitivamente a sua Casa!" Agora, só nos resta esperar que a Fundaj possa, em breve, superando essa fase de "fogo morto", voltar a trilhar os caminhos exitosos que Fernando Freyre lhe traçou. No entanto, se assim não puder ser, consolemos a sua memória com a reflexão de que, neste mundo de transitoriedades, independentemente da permanência da obra que fizemos, o mais importante é que a tenhamos construído um dia. Edgar Mattos é advogado e ex-servidor da Fundaj. FONTE: Jornal do Commercio, 10/Maio/2005. |
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