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A Negritude sob o olhar de Freyre
Fundação Gilberto Freyre realiza série de eventos com o tema O Negro Brasileiro: Tradição e Contemporaneidade para marcar os 70 anos do primeiro Congresso Afro Brasileiro

A partir da publicação de Casa-Grande & Senzala, em 1933, o sociólogo Gilberto Freyre colocou meio que à força o Brasil de frente para o espelho. Retirou o valor degenerativo da mestiçagem, considerada até então um dos principais males no caminho do progresso da 'pátria amada', e passou a interpretá-la como um processo cultural normal, a partir do qual seus subprodutos pudessem ser tratados como peças fundamentais da construção de uma identidade brasileira própria. Ainda gerando polêmica e inúmeras discussões, mesmo 70 anos depois de ter sido lançado, uma das facções desse País mestiço desmascarada por Casa-Grande, a negra, é colocada em questão a partir de hoje durante a Semana Gilberto Freyre.

Os cinco dias do evento, organizados pela Fundação Gilberto Freyre (FGF), terão como tema O Negro Brasileiro: Tradição e Contemporaneidade. A semana presta homenagem aos 70 anos do primeiro Congresso Afro Brasileiro, realizado no Recife cuja técnica foi inteiramente nova para a época, pois não abarcou nenhuma pompa ou aparato acadêmico. Segundo o próprio Gilberto Freyre em seu "Novos Estudos Afro Brasileiros" o Congresso "com toda a sua simplicidade, deu novo feitio e novo sabor aos estudos afro-brasileiros, libertando-os do exclusivismo acadêmico ou cientificista das 'escolas' rígidas, por um lado, e por outro, da leviandade e ligeireza dos que cultivam o assunto por simples gosto do pitoresco, por literatice, por politiquice, por estetismo, sem nenhuma disciplina intelectual ou científica, sem um sentido social mais profundo dos fatos. A colaboração de analfabetos, de cozinheiras, de pais de terreiro, ao lado da de doutores, como que deu uma força nova aos estudos, a frescura e a vivacidade dos contatos diretos com a realidade bruta". Na época a semana também chamou atenção por não ter recebido qualquer apoio governamental, nem muito se associou a nenhum movimento ou partido político ou qualquer doutrina religiosa. A idéia de Freyre era mostrar o Brasil falando diretamente para o Brasil.

Casa-museu do sociólogo em Apipucos é reaberta

A Semana Gilberto Freyre é aberta hoje, às 8h, com uma missa em homenagem aos 104 anos de nascimento do sociólogo, celebrada pelo Monsenhor José da Silva Aragão. À tarde, será lançado um concurso de ensaios nacional sobre o trabalho de Freyre, organizado pela FGF e pela Global Editora, atual responsável pelos direitos de alguns livros do autor, como Casa-Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos . Na mesma ocasião, ocorre a reabertura da Casa-museu Magdalena e Gilberto Freyre, que reúne objetos e pessoais do casal.

Os debates do seminário O Negro Brasileiro: Tradição e Contemporaneidade, que presta homenagem aos 70 anos do Congresso Afro Brasileiro do Recife, só começarão amanhã. A abertura do evento contará com a participação do antropólogo e escritor Roberto Motta na conferência "Gilberto Freyre: relações raciais e a concepção lusotropicológica de História", que irá enfocar a importância do sociólogo pernambucano na noção da mestiçagem como nós a entedemos hoje em dia.

O seminário O Negro Brasileiro também contará com uma série de mesas-redondas, que abarcam a importância da cultura afro nos estudos de Freyre: "História do Sincretismo Religioso em Pernambuco", "Reavaliação e Atualidade das políticas afro-brasileiras: cotas e ações afirmativas" e "Música, Literatura e Artes negras no Brasil". Seguindo a tradição o evento terá a presença de personalidades ligadas diretamente à questão do negro, como babalorixás, além de antropólogos, psicólogos, museólogos. Haverá, ainda, a apresentação de afoxés, maracatus, ilús e abês. Na sexta, a conferência "Caminhos da Arte afro-brasileira: patrimônios e identidades" do etnólogo e escritor Raul Lody encerrará a programação do evento.

FONTE: Jornal do Commercio, 15/Mar/2004.



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