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O Seminário de Tropicologia Fernando de Mello Freyre O Seminário de Tropicologia, instalado a 29 de março de 1966, na então Universidade do Recife, atualmente Universidade Federal de Pernambuco, pelo então reitor Murilo Guimarães, por inspiração e criação de Gilberto Freyre, tem como centro de convergência das atenções o universo tropical em abordagens interdisciplinares. Infelizmente, neste ano de 2003, foi implodido do espaço em que se encontrava na Fundação Joaquim Nabuco pelas forças de ocupação que, talvez, nem saibam o que é Tropicologia. Ressurge neste final de ano na Fundação Gilberto Freyre, com o apoio da Cátedra Gilberto Freyre da Universidade Federal de Pernambuco, com apenas duas reuniões subordinadas à temática geral “O Brasil em desenvolvimento: Desafios e Perspectivas do Trópico”. A primeira se realizou no dia 1º de dezembro tendo como conferencista o doutor em socioeconomia do desenvolvimento Alessandro Candeas, diplomata brasileiro a serviço da Embaixada do Brasil em Buenos Aires, que abordou o tema “Trópico, cultura e desenvolvimento no Brasil: evolução e atualidade da Tropicologia”, e como comentadora a antropóloga Fátima Quintas. No dia 2, o engenheiro-agrônomo João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, abordou o tema “Potencialidades hídricas do Nordeste Brasileiro”, com comentários de João Paulo Maranhão de Aguiar, engenheiro da Chesf. As reuniões foram realizadas no Espaço Cultural da Fundação Gilberto Freyre, abertas ao público. Sempre é bom lembrar que não é apenas para discutir, estudar, meditar, refletir, comentar, apreciar que os seminaristas, representantes de diversos saberes, de gerações diversas, de pontos de vista diferentes se reúnem, mensalmente, há 37 anos, nesse fórum sobre o Trópico e o homem nele situado, mas, igualmente, para indicar caminhos, sugerir medidas que venham a contribuir para a concretização de uma sociedade brasileira mais justa e mais humana. O trabalho do Seminário de Tropicologia não visa a fins estritamente acadêmicos, mas, antes, é trabalho moralmente comprometido com a qualidade de vida da vasta e sofrida comunidade na qual estamos inseridos. Nasceu a Tropicologia do empenho freyriano de compreender o lugar das civilizações dos Trópicos na experiência social da humanidade, de demonstrar a viabilidade da civilização em área tropical. Pois o Seminário de Tropicologia, também idealizado e criado por Gilberto Freyre, “visa não só o Brasil e dentro do Brasil não só as considerações geofísicas, mas o sociocultural de sua formação. Não só uma lusotropicologia ou uma hispanotropicologia, mas uma tropicologia que se estenda a todos os trópicos culturalmente compreendidos”. Para a Tropicologia converge todo o pensamento de Gilberto Freyre. Não se trata, a Tropicologia, de um entre outros aspectos originais da contribuição de um autor que, nos seus estudos em torno do homem em sociedade, soube como poucos conciliar harmoniosamente o saber do cientista com a intuição do artista, do poeta, do “escritor literário” - como ele próprio gostava de se autodenominar -, do pintor. É abordagem complexa, de difícil rotulação, personalíssima, a instaurada por Gilberto Freyre na pesquisa dos fenômenos sociais do Brasil. Esta a razão da compreensível perplexidade de pesquisadores estritamente ortodoxos, desnorteados diante do modo freyriano de ver, descrever e interpretar o social, um modo tão mais complexo porque foi o autor de “Casa-Grande & Senzala” de todo avesso aos sistemas teóricos, à ambição de prender a realidade em qualquer camisa de força conceitual. A Tropicologia não constitui apenas uma entre tantas contribuições originais de Gilberto Freyre à compreensão do social. Representa, antes, repita-se, o ponto para o qual converge todo o pensamento freyriano. E não só o pensamento, porém, igualmente, a ação do homem público, do publicista comprometido com as grandes questões do seu tempo, da sua sociedade, do parlamentar levando à tribuna uma maneira nova de ver e enfrentar os problemas nacionais. Fernando de Mello Freyre é presidente da Fundação Gilberto Freyre FONTE: Jornal do Commercio, 04/Dez/2003. |
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